Não precisamos ensinar deus a ser providente

Sermão

Sermão para o XX Domingo depois de Pentecostes


Padre Lucas Altmayer, 09/10/2026 18:14

                Caríssimos, existem momentos em que é relativamente fácil confiar em Deus. Quando as coisas caminham bem, quando nossa oração parece ser atendida, quando nossa família está em paz, quando conseguimos perceber algum sentido naquilo que acontece, é fácil dizer: “Deus é bom, Deus cuida de mim, Deus conduz todas as coisas.” Difícil é dizer a mesma coisa quando rezamos e nada parece mudar; quando pedimos uma coisa boa e Deus parece permanecer em silêncio; quando não conseguimos compreender o que a Providência está fazendo. Talvez seja justamente nesses momentos que descobrimos se confiamos verdadeiramente em Deus ou apenas nos resultados que esperávamos receber dEle.

O Evangelho nos apresenta um homem vivendo exatamente esse drama. Seu filho está morrendo. Ele procura Jesus e suplica: “Senhor, desce antes que meu filho morra.” É um pedido legítimo, é a súplica de um pai. E aquele homem já possui fé; se não acreditasse em Jesus, não teria ido procurá-lo. Mas sua fé ainda precisa ser purificada, porque ele não diz apenas aquilo que deseja, parece indicar também como Cristo deve agir: “Desce.” Venha comigo. Entre em minha casa. Cure meu filho antes que seja tarde.

Quantas vezes fazemos exatamente isso! “Senhor, eu confio em Vós, mas resolvei desta maneira.” “Eu confio em Vós, mas não deixeis aquilo acontecer.” “Eu creio na vossa Providência, mas fazei isso agora.” Entregamos um problema a Deus e, logo depois, apresentamos a Ele nosso projeto detalhado de como sua Providência deveria funcionar.

Mas confiar na Providência não significa acreditar que Deus nos dará aquilo que consideramos bom, no momento que consideramos oportuno e da maneira que imaginamos ser melhor. Se fosse assim, não confiaríamos na Providência de Deus; estaríamos pedindo que Deus executasse a nossa.

A Providência significa que Deus, em sua sabedoria e bondade, governa todas as coisas e as conduz segundo seus desígnios. Nós enxergamos um pedaço; Deus vê a obra inteira. Nós vemos o presente; Deus conhece o princípio e o fim. Nós sabemos aquilo que desejamos; Deus conhece perfeitamente aquilo de que necessitamos. Por isso, algumas vezes Deus concede aquilo que pedimos imediatamente; outras vezes nos faz esperar; outras vezes concede de maneira diferente; e pode acontecer que não conceda determinado bem temporal que desejávamos, porque sua sabedoria conhece aquilo que nós não conhecemos.

A fé, portanto, não consiste em dizer: “Tenho certeza de que tudo acontecerá como eu quero.” Isso não é fé. A fé diz: “Tenho certeza de quem é Deus, mesmo quando não sei o que acontecerá.”

É justamente isso que Nosso Senhor ensina ao régulo. O homem insiste: “Senhor, desce antes que meu filho morra.” E Jesus não desce. Não vai com ele, não lhe mostra o menino curado, não lhe oferece uma prova. Diz simplesmente: “Vai, teu filho vive.”

E então vem uma das frases mais belas do Evangelho: “O homem acreditou na palavra que Jesus lhe disse e partiu.”

Ele partiu sem ter visto.

Não havia recebido nenhuma notícia de casa. Não sabia o que estava acontecendo com o filho. Possuía apenas uma coisa: a palavra de Jesus. E a palavra de Jesus foi suficiente para fazê-lo caminhar.

Aqui está a fé sobrenatural. Eu creio não simplesmente porque compreendo, porque vejo ou porque sinto, mas porque Deus falou. Deus não pode enganar-se nem enganar-nos. Quando tudo está claro, caminhamos porque enxergamos o caminho; quando tudo fica escuro, descobrimos se somos capazes de caminhar porque confiamos naquele que conhece o caminho.

E existe um detalhe belíssimo: entre a palavra de Jesus e a confirmação do milagre existe um caminho. Cristo diz: “Vai, teu filho vive”, e aquele pai precisa voltar para casa sem ainda ter visto o filho.

Talvez muitos de nós estejamos exatamente nesse caminho.

Rezamos, mas ainda não vimos, combatemos, mas ainda não vencemos, educamos os filhos, mas não sabemos quem eles serão, pedimos pela conversão de alguém, mas ainda não percebemos mudança, carregamos uma cruz e não sabemos quando terminará.

Estamos entre a palavra de Cristo e a chegada dos servos.

E talvez a grande tentação seja pensar que, porque ainda não vemos aquilo que Deus está fazendo, Deus não está fazendo nada. Mas o Evangelho mostra o contrário. Enquanto aquele pai caminhava sem saber, Cristo já havia agido. Os servos finalmente chegam: “Teu filho vive.” Ele pergunta a hora e descobre que fora justamente quando Jesus pronunciara aquelas palavras.

Não ver a ação de Deus não significa que Deus não esteja agindo. Não compreender a Providência não significa que não exista Providência.

É por isso que São Paulo, na Epístola deste domingo, nos manda olhar cuidadosamente como caminhamos, aproveitar o tempo e compreender qual é a vontade de Deus. A fé não significa ficar parado esperando milagres. O régulo acredita e caminha. Cristo falou, e ele partiu.

Talvez seja essa a regra de que precisamos: a Providência pertence a Deus e a fidelidade de hoje pertence a nós.

Você não sabe como determinada situação terminará? Faça hoje aquilo que Deus lhe pede. Não sabe o futuro de seus filhos? Eduque-os hoje segundo Deus. Não sabe quando vencerá determinado defeito? Combata-o hoje. Não sabe quando determinada graça chegará? Reze hoje. Não sabe como Deus resolverá determinado problema? Faça prudentemente aquilo que lhe cabe hoje.

Talvez soframos tanto porque queremos carregar ao mesmo tempo duas coisas: o dever presente e o controle do futuro. Deus nunca nos deu esse segundo peso. O futuro pertence à Providência.

Portanto, se você está naquele caminho entre a palavra de Cristo e a chegada dos servos, continue caminhando. Não porque tenha certeza de que Deus fará exatamente aquilo que você deseja, mas porque Deus continua sendo Deus. Sua sabedoria não diminuiu, sua bondade não mudou, sua onipotência não desapareceu, sua Providência não deixou de governar simplesmente porque você deixou de compreender.

O régulo queria que Jesus fosse com ele. Jesus lhe deu apenas sua palavra. E aquele homem descobriu que a palavra de Cristo era suficiente.

Se Deus não lhe mostrar hoje o milagre, se não lhe explicar sua Providência, se não lhe revelar como sua história terminará, a palavra dEle será suficiente para que você continue caminhando?

O homem acreditou na palavra de Jesus. E partiu.

É isso que a fé faz: ela nos permite caminhar quando ainda não vemos. É isso que a Providência exige de nós: não que compreendamos todos os caminhos de Deus, mas que confiemos naquele que os conhece.

São belíssimos os frutos do abandono na Divina Providência: nos tornamos mais íntimos de Deus, como um filho que confia inteiramente na mãe; caminhamos cheios de liberdade, desejando apenas o que Deus quer; estamos sempre constantes e animados, confiantes de que se Deus quer assim, assim é o melhor. Ficamos repletos de paz e alegria pois nada pode alterar esta paz em nós, fruto do Espírito Santo, bem como a alergia, pois estamos na certeza da vontade de Deus. Abandonar-se em Deus, por fim, nos garante um morte santa e um grande auxílio de Deus: no céu, Ele mesmo cumprirá a vontade daqueles que cumpriram a Sua vontade neste mundo.

Há uma grande paz quando finalmente compreendemos que não precisamos governar o mundo. Não precisamos saber tudo o que acontecerá amanhã. Não precisamos determinar o momento em que Deus deve agir. Não precisamos ensinar a Providência a ser Providência.