Padre Lucas Altmayer, 15/10/2026 22:28
Há uma coisa quase absurda no Evangelho de hoje. Um homem deve ao seu senhor dez mil talentos. Nosso Senhor escolhe uma quantia enorme, uma dívida tão desproporcionada que aquele servo simplesmente não tinha condições de pagá-la. Quando chega o momento de prestar contas, ele se lança aos pés do rei e diz: “Tem paciência comigo e eu te pagarei tudo.” A promessa chega a ser comovente, pois aquele homem ainda pensa que seu problema é uma questão de tempo. Ele imagina que, recebendo um prazo maior, conseguirá trabalhar, organizar sua vida e finalmente pagar tudo. Só que não conseguirá. A dívida está acima de suas possibilidades. O servo pede tempo, e o rei lhe dá algo muito maior do que aquilo que havia pedido: compadecido dele, perdoa-lhe toda a dívida.
Essa dívida da parábola é uma imagem muito clara do pecado, e por isso existe uma grande conveniência em conservar no Pai-Nosso a expressão “perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. É a tradução mais literal do latim da liturgia, dimitte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris, e conserva precisamente a imagem utilizada por Nosso Senhor neste Evangelho. Evidentemente, dizer “perdoai-nos as nossas ofensas” não apresenta nenhum problema doutrinal; traduções tradicionais em países como França e Portugal empregaram essa linguagem, e o próprio Dom Marcel Lefebvre, por exemplo, rezava segundo o uso francês. Mas a palavra “dívidas” possui aqui uma força especial: o pecado nos torna verdadeiramente devedores diante de Deus. Cada pecado contrai uma dívida de justiça, e é justamente diante dessa dívida que começamos a compreender a grandeza da misericórdia daquele Rei que pode perdoar aquilo que jamais seríamos capazes de quitar por nós mesmos.
Essa cena descreve muito bem um erro que pode aparecer em nossa vida espiritual. Diante de nossas misérias, pensamos frequentemente que tudo depende de conseguirmos reunir dentro de nós força suficiente para vencê-las. Se eu me esforçasse mais, se tivesse mais disciplina, se rezasse melhor, se não tivesse este temperamento, se conseguisse finalmente vencer aquele pecado, então minha vida espiritual estaria em ordem. Quando percebemos a distância entre aquilo que deveríamos ser e aquilo que realmente somos, fazemos como o servo e prometemos pagar. Dizemos a Deus que desta vez conseguiremos, que desta vez será diferente, que aquela queda não acontecerá novamente. Evidentemente, precisamos lutar e cooperar com a graça, pois a misericórdia de Deus jamais pode servir de desculpa para a preguiça espiritual. O problema começa quando colocamos a esperança de nossa santificação principalmente naquilo que somos capazes de fazer.
Depois de alguns anos de vida espiritual, começamos a descobrir uma verdade bastante humilhante sobre nós mesmos: somos mais fracos do que imaginávamos. Existem defeitos que julgávamos vencer rapidamente e que continuam conosco depois de muito tempo. Existem tentações que retornam quando pensávamos já tê-las superado. Existem resoluções que tomamos sinceramente e que acabamos quebrando. Há pecados dos quais nos arrependemos profundamente e diante dos quais precisamos continuar vigilantes porque conhecemos nossa fraqueza. É precisamente nesse momento que aparece uma tentação sobre a qual já temos falado bastante: o desânimo.
O desânimo olha para a dívida e conclui que é impossível pagá-la. E, se olharmos somente para nós mesmos, essa conclusão parece razoável. O erro está em esquecer que a esperança cristã nunca esteve fundada exclusivamente em nossas forças. O servo olha para os dez mil talentos e pensa que precisa encontrar dentro de si os recursos para pagar. O Evangelho nos obriga a levantar os olhos e perceber que diante daquele homem existe um rei capaz de fazer aquilo que ele jamais poderia fazer sozinho. Aqui se encontra a diferença entre o desânimo e a esperança. O desanimado mede tudo pela própria fraqueza e, depois de constatar que é fraco, conclui que não chegará ao fim. A esperança reconhece essa mesma fraqueza, porém olha para Deus e encontra nEle a razão para continuar.
Por isso é importante recordar quais são os motivos da nossa esperança. Quando fazemos um ato de esperança, declaramos que esperamos de Deus a vida eterna e as graças necessárias para alcançá-la, apoiados naquilo que Deus é. A esperança cristã não significa uma certeza presunçosa de que seremos salvos independentemente da maneira como vivemos. Ela nos faz confiar que Deus concederá os auxílios necessários para a salvação e que podemos contar com Ele enquanto correspondemos à sua graça. Isso muda completamente a maneira como contemplamos nossas misérias, pois deixamos de perguntar apenas se somos fortes o bastante e começamos a considerar quem é Aquele em quem esperamos.
Nossa esperança encontra um fundamento seguro na fidelidade de Deus. Nós conhecemos nossa própria inconstância. Sabemos quantas vezes começamos alguma coisa com entusiasmo e depois esfriamos, quantas resoluções foram abandonadas e quantas vezes mudamos de disposição. Seria realmente assustador se a nossa salvação dependesse da estabilidade de nossos sentimentos. Há dias em que rezamos com facilidade e outros em que a oração pesa; há períodos de fervor e períodos em que a vida espiritual parece árida. Deus, porém, permanece o mesmo. Quando Ele promete sua graça àquele que a pede retamente, quando chama o pecador à conversão e oferece o perdão àquele que se arrepende sinceramente, sua palavra não depende das mudanças que acontecem dentro de nós. Podemos desconfiar de nossa constância, e muitas vezes temos boas razões para isso, mas não podemos projetar nossa inconstância sobre Deus.
Também esperamos porque o poder de Deus é infinitamente maior do que a nossa fraqueza. Essa verdade deixa de ser abstrata quando pensamos seriamente em nossa santificação. Há pessoas que, depois de lutar durante anos contra determinado defeito, começam a considerá-lo praticamente invencível. A pessoa cai tantas vezes que passa a pensar: “Eu sempre serei assim.” Aos poucos, transforma uma experiência repetida de fraqueza numa espécie de profecia sobre o próprio futuro. É aí que a esperança precisa intervir. O fato de eu não ter conseguido vencer determinada coisa até agora não significa que a graça de Deus tenha perdido sua eficácia. Deus pode exigir de mim um combate longo. Pode permitir que a luta contra determinada fraqueza me acompanhe durante muito tempo e me ensine uma humildade que eu não aprenderia de outro modo. O que eu jamais posso fazer é usar minha própria fraqueza como medida do poder de Deus.
É justamente aqui que a parábola nos apresenta a misericórdia. O rei olha para um homem incapaz de pagar e se compadece dele. Precisamos compreender que nossa miséria, quando reconhecida com humildade e levada sinceramente a Deus, não destrói a esperança. A miséria é precisamente aquilo que necessita de misericórdia. Se pudéssemos pagar toda a dívida por nossas próprias forças, a misericórdia deixaria de ser necessária. O pecador se aproxima de Cristo justamente porque precisa ser salvo. Por isso é tão perigoso quando uma queda nos afasta de Deus. Pecamos e sentimos vergonha de voltar. Caímos novamente e pensamos que já pedimos perdão vezes demais. Repetimos uma fraqueza e começamos a imaginar que Deus deve estar cansado de nós. O desânimo consegue então realizar uma obra terrível: usa até mesmo o reconhecimento de nossa miséria para nos afastar daquele que pode curá-la.
Existe uma grande diferença entre arrependimento e desânimo. O arrependimento olha para o pecado e nos conduz de volta a Deus. O desânimo olha para o mesmo pecado e nos fecha dentro de nós mesmos. Uma alma verdadeiramente arrependida reconhece o mal que fez, procura a Confissão quando necessária, toma os meios para evitar uma nova queda e volta ao combate. A alma desanimada fica contemplando a própria miséria até começar a acreditar que a misericórdia já não é para ela. O primeiro movimento nasce da humildade; o segundo pode esconder uma forma muito sutil de orgulho, porque continuamos excessivamente ocupados conosco mesmos, decepcionados por descobrir que não éramos tão fortes quanto imaginávamos.
Essa é uma das perguntas mais importantes que podemos fazer quando surge o desânimo: onde estava colocada a minha esperança? Se a descoberta de minha fraqueza foi suficiente para destruir toda a minha esperança, é possível que eu estivesse esperando demais em mim mesmo. Enquanto eu me julgava forte, caminhava tranquilamente; quando descobri que era fraco, tudo desabou. A esperança sobrenatural começa a amadurecer justamente quando a experiência de nossa pobreza deixa de nos surpreender tanto. Começamos a compreender que nunca foi nossa força que tornou possível a santidade. Deus sempre foi o fundamento.
Por isso, há uma frase do Evangelho de hoje que merece permanecer conosco: “Compadecido daquele servo, o senhor deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida.” A dívida não era imaginária. O Evangelho não diminui sua gravidade para consolar o devedor. Eram dez mil talentos. O que muda a situação daquele homem é a grandeza da misericórdia que encontra diante de si. O mesmo acontece conosco. A esperança cristã não exige que chamemos nossos pecados de pequenos nem que finjamos que nossas infidelidades não são graves. Podemos olhar com toda sinceridade para nossa miséria precisamente porque sabemos que ela não é a realidade suprema. Acima da miséria do homem está a misericórdia de Deus.
É necessário, evidentemente, guardar-se da presunção. O próprio final da parábola é uma advertência severa contra aquele que recebe misericórdia e se recusa a corresponder a ela. Ninguém pode usar a bondade de Deus como licença para permanecer voluntariamente no pecado. A esperança verdadeira produz combate, arrependimento e perseverança. Quem espera em Deus continua lutando justamente porque sabe que a luta não é inútil. O desânimo, ao contrário, sussurra que já não vale a pena confessar aquela queda outra vez, retomar aquela oração, vigiar novamente aquela ocasião de pecado. É nesse momento que precisamos rejeitar essa tentação e recordar quem é Deus.
Se alguém está cansado de lutar contra um defeito, se caiu novamente depois de ter prometido que não cairia, se olha para a própria vida e sente vergonha da distância que ainda existe entre aquilo que é e aquilo que deveria ser, o Evangelho deste domingo apresenta uma imagem que não podemos esquecer: um homem de joelhos diante de uma dívida impossível e um rei que pode fazer por ele aquilo que ele não consegue fazer por si mesmo. É nessa imagem que devemos reencontrar os motivos da nossa esperança. Deus continua sendo fiel quando somos inconstantes. Seu poder não diminui quando descobrimos nossa fraqueza. Sua misericórdia não se torna pequena quando percebemos o tamanho de nossa dívida.
Caros amigos, o servo pediu tempo. O rei lhe deu misericórdia. Ele pensava que precisava apenas de uma nova oportunidade para conseguir pagar sozinho aquilo que devia, quando sua verdadeira necessidade era muito maior. Também nós precisamos aprender que a vida espiritual não consiste em provar a Deus que somos suficientemente fortes. Nossa esperança está em receber sua graça e corresponder a ela, levantando-nos sempre que cairmos e permanecendo fiéis ao combate enquanto Ele nos conceder tempo.
Quando o peso de nossas faltas parecer uma dívida de dez mil talentos, não devemos permanecer apenas fazendo as contas. É preciso olhar para o Rei. A dívida é grande, mas não é maior do que sua misericórdia. Nossa fraqueza é real, mas não determina aquilo que a graça de Deus pode realizar em nós. E quando o desânimo disser que já caímos demais, que já tentamos demais e que não conseguiremos chegar ao fim, a esperança cristã nos fará levantar novamente os olhos para Deus e recordar onde está o nosso auxílio.
O servo dizia: “Eu te pagarei tudo.” Nós sabemos que não podemos dizer isso diante de Deus como se fôssemos capazes de salvar a nós mesmos. Podemos, porém, lançar-nos aos seus pés, reconhecer nossa dívida e confiar naquele que é fiel às suas promessas e cuja misericórdia é maior do que nossa miséria. É daí que nasce a força para continuar caminhando.